No Brasil durante o lançamento da parceria entre São Paulo e Nova Iorque para a difusão do basquete como ferramenta de políticas públicas, Nate Archibald continua representando a modalidade, agora em trajes civis.
Jogador de NBA aposentado, único na história da liga a liderar uma temporada em pontos e assistências, em 1973, ele foi The Escape, o pequeno Tiny, que correu por pisos de taco batendo a bola laranja e gravou seu nome entre os 50 melhores jogadores na história da liga.
Draftado em 1970 pelo Cincinnati Royals, migrou para Kansas City-Omaha Kings (mais tarde Sacramento), New York Nets, Buffalo Braves, Boston Celtics, onde conseguiu seu primeiro título e encerrou sua carreira no Milwaukee Bucks.
Os anos não tiraram dele a empolgação pelo jogo. Nate gosta de conversar sobre basquete, considera-se um especialista no assunto, e aproveitou a passagem pelo país para conceder ao Playoff a entrevista que você lê a seguir.
O Projeto Sports Partners and Cities tem uma preocupação com a base e não com a estrutura do basquete profissional. Isso pode acarretar em uma descontinuidade do programa, uma vez que não há estrutura para absorver essa fundação?
Quando você começa a construir seus fundamentos é preciso ter um planejamento de curto e longo prazo. Quando você olha para o topo, lá estão os caras que irão para o nível profissional. Eu não estou visualizando essa parte. Eu gosto de começar de baixo. Digo às pessoas que já estive lá, e não foi fácil. Entrar nesse perímetro e ficar nele é difícil.
Como se garantir nele?
Todas as pessoas, homens e mulheres, precisam começar da base para que a competição se torne melhor. Para isso é necessário investir tempo e dedicação. Às vezes é preciso contar com a sorte. Mas o principal é obter conhecimento. E ter exposição. Muitas pessoas que jogaram profissionalmente no fim dos anos 1980 e começo dos 1990 tiveram chance de ir para o exterior. Foi assim que essas pessoas conseguiram uma chance de jogar na NBA e na WNBA. Parte do nosso programa é gerar essa exposição. Mas também expô-los a diferentes elementos vitais, por meio da educação, aos quais eles nunca tiveram oportunidade.
E quanto a você, chegou a ter dúvidas se conseguiria jogar na NBA?
Sempre tive. Mesmo após ser draftado (em 1970, pelo Cincinati Royals), pois nunca havia participado daquele tipo de competição. O basquete universitário era difícil. Eu digo para as pessoas que pensam que jogar na NBA por 14 anos foi fácil. Não era. Exige preparação, conhecimento dos jogadores, e eu estava numa situação única em que tinha que conduzir a bola e liderar o time. E eu era mais introvertido, quieto, o que tornou tudo mais difícil para meus companheiros. Todos olham para os jogadores de NBA e pensam que é uma vida tranqüila, mas é uma batalha lá fora.
Por quê?
Pessoas estão tentando garantir seus empregos, tentando entrar no time e permanecer nele. Em meu primeiro ano, tive muitas dúvidas, mas depois quis jogar mais e mais anos - e eu tive chance de fazer isso. Um monte de caras que, antes de tudo, consegue uma chance de jogar na liga, só pensam que vão ficar ricos. O negócio é aproveitar o jogo, você não sabe o quanto vai durar, se muito ou pouco, mas curta o jogo, se divirta, com sorte você terá experiência para compartilhar e ensinar.
Ser pequeno no meio de jogadores gigantescos foi um obstáculo?
Eu não fui um jogador grande e digo às pessoas que, antes de tudo, tive sorte de ter um mentor e companheiros que me deram uma base sólida. Essas pessoas me ensinaram habilidades para a vida. Pude ir para a escola, me dediquei na faculdade e então fui draftado pela NBA por um time que tinha meu ídolo de infância como técnico. Bob Cousy (ex-Boston Celtics) me deu chance de jogar logo cedo. Ele pegou a bola da mão de todos os outros e me entregou. E isso me fez perceber que pequeno é apenas um fragmento de pensamento. Eu era um homem pequeno, mas acredito que tinha um jogo grande.
No Sacramento Kings, você praticamente carregou o time nas costas. Vemos jovens atletas com grande responsabilidade, como LeBron James, serem muito cobrados. Foi o mesmo com você?
A pressão que senti foi crescer. Fui criado em Nova Iorque. Essa era a pressão. O jogo era divertido, o jogo era fácil. Começa a ficar complicado quando se trabalha os fundamentos. Quando o jogo era divertido? Na escola, antes do colegial. Eu não sabia nada do jogo. Mas aí precisei competir para entrar no time. Havia 50 caras e apenas 12 fariam parte da equipe. O jogo já não era mais divertido. Quando você joga em ligas diferentes, seja streetball ou outras ligas menores, você pode fazer o que quiser. Mas uma estrutura organizada faz com que seu jogo mude. E se você não se ajustar àquele estilo do técnico e fizer o que quiser na quadra, você não joga.
Recentemente, e ao longo dos anos, não foram poucos os casos de mau comportamento de jogadores fora da quadra. Você concorda com as políticas da NBA, como o código de vestimenta, que procuram controlar os atletas?
Não digo que descordo do que eles fazem. Isso começa com o nível elementar, onde nasce a atitude, o desejo, a dedicação, a confiança, fatores de respeito. Os jogos de futebol que assisto – e não entendo nada disso -, mas vejo os jogadores se abraçando depois do jogo, assim como em outros esportes. Os jogadores se cumprimetam, apertam as mãos, trocam camisas. Na NBA, eles saem se encarando, cada um vai para o seu canto. Isso tudo vem de cedo, não tem nada a ver com a política da Liga.
A liga acredita que os jogadores são modelos?
A NBA precisa de uma imagem assim como todos os esportes. As pessoas que praticam a modalidade precisam entender que estão ganhando um belo salário e precisam cuidar de si mesmos. Ninguém pode pensar “tudo bem, vou ser um jogador de basquete dentro da quadra e um gangster fora dela”. Você precisa entender que há uma imagem e que você é um modelo.
Bob Cousy, quando era técnico dos Royals, gerou polêmica ao brigar com Oscar Robertson, então jogador do Cincinnati. Como foi sua experiência sob o comando dele?
Foi ótimo para mim. Ele tinha diferenças com Oscar antes de eu chegar lá. O Cou queria ter um jogo mais veloz, como o do time do Boston Celtics em que ele jogou. Queria mais transição, passes rápidos. Oscar queria prender a bola, segurar o jogo e ter mais controle. Então eles tiveram conflitos. Bem ou mal, Cou me deu uma chance de jogar e, como disse antes, ele me deu a bola e me fez fazer o que era preciso para vencer jogos.
Antes de ir para os Celtics, sua carreira passou por um momento conturbado. Você chegou a pensar em desistir?
Eles (a mídia) diziam que eu estava acabado. É por isso que falo da importância dos programas em que você esteve envolvido durante seu crescimento. Sempre tentei fazer parte da comunidade. Meus treinadores e mentores me ajudaram a perceber que para seu sonho se tornar realidade, sua reabilitação vai acontecer ou não, mesmo se voltar 100%, 75%. Incentivei as crianças e elas me deram apoio quando me machuquei. Elas diziam: “você pode jogar com eles”, “eles não vão conseguir sem você”, coisas assim. O suporte esteve sempre lá e, algumas vezes, uma mão lava a outra. Eu gastei meu tempo com as crianças e elas retribuíram, me encorajando para voltar a jogar do modo que eu quisesse e ser a mesma pessoa de sempre. Voltei, e joguei mais seis ou sete anos.
Logo que chegou em Boston, houve algum tipo de mal-estar entre você, JoJo White e Dave Cowens. Isso arriscou sua saída do time?
Tive sorte de eles me manterem, e em 1981 nós ganhamos um campeonato. Eu havia jogado com Dave antes, na liga de verão. Nós viramos profissionais. É uma pena que as carreiras na NBA nem sempre são positivas. Algumas pessoas têm altos e baixos. Eu passei por montes e vales. Não ganhei muito dinheiro, mas me diverti. Conquistei boa experiência e conhecimento de jogo e estou aqui para compartilhá-la, seja no Brasil ou em Nova Iorque, para reforçar às crianças que não é fácil. É preciso se dedicar, ser determinado e ter um programa na sua cabeça que você deve realizar não importa o que aqueles que duvidam de você dizem por aí. Muitas pessoas duvidavam que eu pudesse entrar na NBA.
Seu primeiro título veio com a reestruturação da equipe e a chegada de Larry Bird. Os Celtics estão prontos para formar uma nova dinastia com Kevin Garnett, Paul Pierce e Ray Allen?
Isso foi antes, e nós ganhamos o campeonato. Eles não têm que tentar reproduzir. As peças para vencerem estão aí. Eu acredito que qualquer um possa vencer. No Jogo 5, pensei que eles estavam tentando entregar o jogo. Detroit tinha e Los Angeles também. Pessoas davam o San Antonio como morto porque estavam perdendo por 3 a 1 (os Spurs foram despachados pelos Lakers na última quinta-feira na final da Conferência Oeste). Eu lembro de uma série em que eu estive nessa situação e revertemos para ganhar. É a determinação dos jogadores que importa. Tive sorte de jogar no Boston Celtics, que tem mais títulos do que qualquer outro time na história do jogo. Sou um cara do basquete, não torço para um ou outro. Gosto de ver um bom jogo, ver a competição, caras que eu admiro em times diferentes, coisas assim. O jogo está ficando melhor e não é só nos EUA.
Com a internacionalização da NBA, os jogadores americanos perdem espaço?
Eles não estão perdendo espaço. As pessoas ao redor do mundo estão ficando melhores e a demanda agora é por jogadores especializados. Não necessariamente pivôs, mas jogadores multifuncionais, que vão competir toda noite, jogar e treinar forte. E não precisa ser dos EUA, pode ser do Brasil, Venezuela, Iugoslávia. Não importa. Eles querem jogadores com vontade, que compitam toda noite. O jogo mudou geografcamente. Se você olhar para as olimpíadas, os EUA dominavam no passado e não estão mais no topo. O jogo mudou porque as pessoas pegaram o jogo e o tornaram melhor para si próprios.
Você pode nomear alguns desses jogadores que são multifuncionais?
Kobe Bryant, LeBron James, Dwyane Wade, T-Mac, são caras que com a habilidade e técnica que possuem podem fazer o que quiserem com a bola. Eu colocaria Kobe em primeiro, pois ele também marca os melhores jogadores dos outro times também. Ele tem talento, habilidade, garra e intelecto para dizer “você não pode me marcar, mas eu vou te parar, porque você é o melhor jogador adversário”. Não digo só na NBA, Kobe é o melhor jogador do mundo.
Gostou da votação dele para MVP?
A votação de Kobe foi incontestável. Eu estou falando de um cara que, seja na temporada ou nos playoffs, pode, sozinho, acabar com o jogo. O único que pode fazer isso é Kobe Bryant.
Recentemente, surgiram dúvidas se Robert Horry, dos Spurs, deveria ser nomeado para o Hall da Fama. Qual a sua opinião?
Sempre digo que times, sejam brasileiros, o San Antonio, os Lakers, o Boston, precisam de mais jogadores como Robert Horry. Ele é o que chamo de utilitário. Fará de tudo para ganhar: bater na sua cabeça, acertar um grande arremesso, pegar rebotes, irá se adiantar para marcar o mais bruto dos adversários. Muitas pessoas pensam que são os titulares que precisam ser assim. Robert é o protótipo do jogador “eu-vou-fazer-de-tudo-pelo-time-para-vencer-como-um-time”.
Qual a melhor lembrança que você tem de sua carreira?
É a de vencer um campeonato da NBA. Esses caras que nunca ganharam vão dizer para você: se eu pudesse fazer tudo de novo, eu abriria mão de meus pontos para ser parte de um campeão.
Foi o que você fez, deixou de ser um grande pontuador para conduzir o time.
Eu me tornei o que eles chamam de criador de jogada, o que foi bom, porque o jogo é como outras coisas: é preciso fazer sacrifícios. E as pessoas dizem que eu fiz uma grande concessão, porque eu ainda podia marcar (pontos). Me sentia com sorte apenas por estar no time, porque se eu estivesse em algum outro lugar eu provavelmente não ganharia um campeonato. Eu entendi a minha responsabilidade e tentei fazer o melhor que pude.
Você tinha algum ritual antes dos jogos?
Eu fazia muitas coisas, mas é segredo
Pelo menos um.
Várias coisas como pular corda, rezar, vestir o uniforme de um jeito particular... Mas todo mundo tem esses rituais. Uma criança perguntou se eu ficava nervoso antes dos jogos. Eu sempre fico nervoso, disse a ela. É esse nervosismo que tento transformar em energia positiva para ir lá fora.
No seu tempo, jogadores como Pete Maravich, que foi draftado em 1970, eram considerados ratos de ginásio. Hoje em dia, jogadores ganham experiência nas ruas. O streetball contribui para formar um bom jogador?
Ajuda, mas prefiro um jogador mais de fundamento, um cara que represente o basquete de equipe. Eu gosto de streetball. Um cara que está na NBA jogando com o Houston Rockets era um jogador de streetball (Rafer Alston). Ele teve que modificar seu jogo. Ele ainda consegue fazer aqueles truques, é claro que sim. Ele foi um dos pioneiros a conseguir. Mas a visão dele era: quero jogar na NBA. Ninguém fala no Rafe, mas é um dos melhores manipuladores de bola e em assistência. E ele não fazia isso, mas é o que faz para o Houston Rockets. Eles valorizam a presença dele. Sim, você precisa fazer ajustes em seu jogo. Não digo que o streetball é dominante, mas você pode adicionar isso ao seu repertório, se não atrapalha seu time.
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